Pai Ronaldo

Amigos,

Mais uma personalidade do meio espiritualista para brindar o ArteFolk com sua experiência de vida. Dessa vez trazemos o Pai Ronaldo, do Santuário Nacional da Umbanda, sediado em São Paulo, no Grande ABC. Segue:

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ARTEFOLK: Bom, ouvi um breve resumo da história de sua vida na seção solene na Câmara dos Deputados de São Paulo, e acredito que todos devam saber: conte-nos como o senhor descobriu a Umbanda.

PAI RONALDO: É difícil contar a história da Umbanda num e-mail, mas, tentarei fazer um resumo do resumo:

Respondendo a primeira questão, eu não descobri a Umbanda, visto que já vinha da PRática do Candomblé, onde me ensinavam e atemorizavam dizendo que “Umbanda não tem fundamento” (seja lá o que for que isso quisesse dizer).  Diziam também que os eguns prejudicavam as pessoas nos Templos de Umbanda, ou seja, “fique longe porque é mau e perigoso”.

Um dia, ao acompanhar um amigo que ia ao Templo (que eu imaginava ser uma Roça de Candomblé), encontrei, por vez primeira, um Templo de Umbanda.  Encontrei e me assustei quando, uma velha senhora negra, mandou uma menina que lhe servia de cambone me chamar na assistência, quando me vi diante da entidade.

Esta disse-me:

- “Meu cavalo vai cufar (morrer) e você será meu médium”.

O susto foi tão grande que fugi do Templo, imaginando nunca mais ter que pisar num Templo de Umbanda.  Eu soube, alguns meses depois, por uma incorporação involuntária, que a referida senhora havia falecido e passei a ser o médium da entidade, denominado Pai Benedito de Aruanda;

ARTEFOLK: Quais as dificuldades da mudança do Candomblé para a Umbanda?

PAI RONALDO: A grande dificuldade de mudar de Candomblé para Umbanda foi que, embora as duas religiões tenham em comum o nome dos Orixás africanos e algumas práticas mais simples, o princípio que rege cada uma é oposto ao da outra e até mesmo conflitante, exemplo: Na Umbanda nós chamamos e incorporamos Eguns (espíritos dos mortos) e, por intermédio deles, conduzimos a gira.  Já no Candomblé, a primeira coisa que fazemos é dar o Padê de Exu, para que ele afaste os Eguns do Terreiro, dando lugar às divindades;

ARTEFOLK: O que o senhor acha das “brigas”, das “intrigas” que acontecem hoje em dia, principalmente nas comunidades on line (Orkut, fóruns) entre os praticantes de Candomblé e Umbanda?

PAI RONALDO: As brigas e intrigas havidas na Internet mostram que tanto os seguidores da Umbanda, quanto os do Candomblé, falam por paixão e quase sempre sem razão.  São tolices que só levam ao descrédito as partes conflitantes e resultam quase sempre de desconhecimento de causa;

ARTEFOLK: O senhor encontrou o Sr. Zélio durante uma “busca” para descobrir o que era a Umbanda, dentro de sua pluralidade. O que senhor descobriu?

PAI RONALDO: O meu ingresso no Candomblé foi quase por acaso, e só foi possível porque um médico que cuidava de um problema de saúde do meu Pai de Santo, recomendou-me a este que me acolhesse, dado uma sequela de acidente que eu havia sofrido e da qual tardava em me recuperar (o médico era otorrino e meu problema era traumatismo na coluna).

Em 1.946, brancos eram raramente aceitos no Candomblé, mas, pedido de médico e de padre não se recusa.

Quando iniciei na Umbanda tinha muitas dúvidas:

>> A Umbanda tem um altar católico mas uma prática espírita;

>> Um rio 50% africano, 50% indígena…

eu não conseguia entender esse coquetel de religiões, pois não havia lógica.  Então imaginei que, se encontrasse o primeiro Chefe de Terreiro, ele me deveria me explicar o porque disso.

Por isso e, como encontrei muitas pessoas que como eu, frequentava a antiga Pedreira Montanhão (atualmente é o SANTUÁRIO NACIONAL DA UMBANDA).  Convidei alguns desses irmãos para que trocássemos informações e passamos a nos reunir, ora em minha casa, ora no Templo de alguns dos participantes.  E assim nasceu o 1º Núcleo de Estudos da Doutrina Umbandista, logo seguido do Curso Sobre Incorporação e Desenvolvimento.

Os alunos precisavam de respostas, QUE EU NÃO TINHA e, a todo veterano ou autoridade que encontrava, eu pedia que dissesse no microfone do gravador desodorante (aquele que anda sempre em baixo do braço):

- “Há quanto tempo o senhor está na Umbanda?”;

- “Qual a Tenda mais antiga que conhece?”.

Alguns autores, em especial Mata e Silva, dizem que a Umbanda é quatrienal.  Eu, por mais que tentasse, não conseguia imaginar um faraó Pai de Santo.

O Pino era Redondo e o buraco era quadrado – as informações não batiam!

Desta forma, cheguei a Zélio Fernandino de Moraes, que tirou todas as minhas dúvidas.  Se no Candomblé eu ingressei quase por acaso,  Zélio Fernandino de Moares e a verdadeira Umbanda, foi uma verdadeira busca difícil e tortuosa, pois haviam muitas desinformações.

Não fui o primeiro a falar do senhor Zélio, mas, fui o responsável por torná-lo conhecido.

Encontrar o senhor Zélio foi encontrar a verdadeira Umbanda, simples, pura, humilde como um Preto-Velho e honesta como um Caboclo.  Zélio tinha todas as respostas.  Descobri que Zélio era o pai da Umbanda.

ARTEFOLK: E o que o senhor acha das linhas pseudo-científicas que vêm nascendo? (Ex: Saraceni com sua “codificação da umbanda” e Rivas Neto com a Bíblia da Umbanda)

PAI RONALDO: Creio que toda informação correta é de grande valia.  Rivas Neto é discípulo de Mata e Silva (que criou uma Umbanda só dele – única e exclusiva).

Hoje vejo outros criando “umbandas” totalmente desconhecidas para mim, nada parecidas com a de que Pai Zélio ensinou.

Quanto a uma Bíblia Umbandista e uma codificação, creio que deva ser fruto das práticas da história e do que sabemos das pessoas que, como o Capitão Pessoa, participaram do nascimento das primeiras Tendas., a exemplo da Bíblia, que é um conglomerado de histórias sobre o povo hebreu e a família de Jesus.

ARTEFOLK: Como foi a criação do Santuário Nacional da Umbanda? De onde veio a idéia? Quais as dificuldades encontradas?

PAI RONALDO: Como já mencionei na resposta de nº 4, nós conhecemos a Pedreira Montanhão quando esta ainda funcionava como tal.  Da união dos frequentadores nasceu o Núcleo de Estudos, o Curso sobre Mediunidade e em consequência, o Curso de Formação Sacerdotal da FEDERAÇÃO UMBANDISTA DO GRANDE “ABC” (o primeiro a ser criado no Brasil).  Daí também nasceu, em maio de 1.972, a própria FEDERAÇÃO UMBANDISTA DO GRANDE “ABC”.

Das lembranças de Cachoeiras do Macacu – especialmente do Bairro de Boca do Mato, onde Zélio morava e onde está a Cabana de Pai Antonio – veio a inspiração para a criação do SANTUÁRIO NACIONAL DA UMBANDA, hoje a maior conquista da F.U.G. “ABC” e, por extensão, da família umbandista.

ARTEFOLK: E hoje em dia, quais são suas visões, seus planos para o futuro? E o que o senhor acha que a Umbanda vai encontrar no futuro?

PAI RONALDO: Já me aproximando vertiginosamente dos 80, pretendo NÃO PARAR, mas, quem sabe um dia, possa voltar a ser apenas o médium de Pai Benedito de Aruanda.

A Umbanda, o kardecismo e outras formas de espiritismo e/ou espiritualismo, deverão – num futuro não muito próximo – fundirem-se numa só forma de religião, assim que a humanidade entender que todas essas absurdas divisões somos nós quem fazemos, não é obra de Deus.  Salve o novo espiritualismo universal.

Espero ter respondido de acordo todas as questões, mas, se ainda restar dúvidas, volte a contatar.

Atenciosamente,

Pai Ronaldo Linares

Nino Denani

Nino Denanié espiritualista livre, embora nos último anos tenha frequentado assiduamente um terreiro de Umbanda. Foi Ogã, mas abandonou a função em nome da assistência mediúnica e do aprendizado contínuo. Já foi kardecista, formado pela FEESP (Federação Espírita do Estado de São Paulo), já tocou Umbanda de Nação, e visitou o Candomblé. Curioso por natureza, é meio chato quanto a afirmações absolutistas. Entre em contato comigo: nino@artefolk.com.br

4 Respostas to “Pai Ronaldo”

  1. Muito boa a entrevista, e fico muito feliz de nossa comunidade umbandista ter Pai Ronaldo para guiar a tantos que da caridade necessitam.
    Parabéns mais uma vez ao ArteFolk, e aqui meu desejo que em 2009 façamos um trabalho cada vez mais belo, a fim de preencher nas mentes conhecimentos acerca de nossa religião.

    Abraços Fraternos,

  2. PAI RONALDO LINHARES, VOCÊS SABEM QUEM ERA O LOUCO NAQUELA COPA 1970 EM QUE PAI ZÉLIO FERNANDINO DE MORAES DEU SEU ÚLTIMO SUSPIRO EM SEUS BAÇOS? ERA EU = EU TINHA 20 NAOS.

    SÊ VOCÊS NÃO RECUPERAREM A TENDA DA PIEDADE E SE VOCÊS NÃO COLOCARAM, A UMBANDA , MISTERIOSAMENTE, EM PRIMEIRO LUGAR, OS PROBLEMAS SERÃO CÁRMICOS E MUITO PESADOS.

    PSICOGRAFADO POR ZEFERINO CESAR

  3. Boa tarde. acabei de me mudar de são paulo para cachoeiras de macacu…eu estou em busca de um lugar para dar continuidade a ao meu desenvolvimento. comecei no candomblé..mais gostaria de conhecer um lugar onde pudesse praticar os dois.( se for possivel) será que alguém pode me dizer algum lugar aqui na minha atual cidade ou proximo daqui…fico muito agradecida.
    abraços

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